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23 fevereiro, 2013

Pela primeira vez

E ela nem amanheceu, porque o dia dormiu ao seu lado, e a noite foi sol...

20 fevereiro, 2013

Capacidades

Vou cantar como falo
Dizendo dos mundos em que vivi
E fazendo música do que não é verdade.
Só vou falar do que não sou capaz de viver.
E quando me perguntarem do que gosto
Direi que sempre gostei do que me fez triste
Porque foi o que sempre me importou
Só o que faz a gente triste uma vez traz alegria de verdade
O resto... O resto é brincadeira.
Serei sincera quando chorar
E rirei quando o trem parar de rodar
E apenas quando ele parar
Na estação que ele mesmo escolher.

21 dezembro, 2012

De tanta vergonha, não tem nome


Algumas coisas explicam outras. Aí a gente entende mais da vida. Ou não.

Prefiro esquecer quanto tempo faz. Foram conversas demais, discussões, acordos, silêncios exagerados, solfejos infindáveis. Não comer, não dormir, não brincar na rua ou querer, mais que pipoca, acordar mais cedo... tudo pra ter mais tempo com ele, que ocupava toda a vida que eu precisava repartir. Testava ideias... Dava palpites. Brincava. Deixei, um tantão de vezes, os livros de lado... só pra crescer com o piano. Eu tinha 7 anos.

Tem tempo que eu e a música não conversamos mais porque, por vezes, brigamos... e eu pedi pra desistir. Pedi mesmo. Tava cansada. E não era nem pra eu me importar.  "Já sei viver assim".

Esqueci de como se olha pras notas sem sentir vergonha - porque é necessário sentir vergonha diante daquilo que não tem nome. Tem de ficar tímido e dizer que não é capaz de responder à tamanha tragédia acontecida entre um humano e sua vida: a música. Deve-se pedir desculpas; até perdão, se necessário... E tentar não decepcionar demais a sua alma quando todo som que você fizer for... nada. Se algum fá não representar exatamente aquilo que ela diz, a alma mesmo, renda-se à humildade de perceber, apesar de ser artista. Jogue-se no vazio. E não é preciso tentar de novo, porque tem de ser imperfeito, mesmo que tudo se expanda de horror, como um fôlego inspirado no desastre. Fazer sua música nada mais é do que ser, repetidamente, um intérprete ciente da indignidade.

Aí você esquece de que existe. Larga tudo. Momento em que o primeiro a se calar diante do silêncio entre um tempo e outro é você. Paralisadas, suas mãos se encantam. Já me chamaram de pianista. Eu sorri.

Não era pra doer. Doeu. Pedi pra voltar e imaginei o que seria de mim. Não sabendo esperar, liguei pra minha mãe. "E aí, como é que ele tá?". Tive medo de que não estivesse desafinado. Pedi pra que ela arriscasse algumas notas. Vibrei. Ele ainda me quer por perto... Mas eu sei que não vou voltar.

10 dezembro, 2012

sendo literal


Palavras são desastres.
Vivem por si mesmas
e mentem;
mentem como cúmplices, sabe?
Palavras são desastres.
Destroem a literalidade.

02 outubro, 2012

Além



Boa viagem. Seja livre. Que você encontre gente legal e que você seja legal pra muita gente. Um exemplo pra outros tantos, como foi pra mim. Vá acompanhado de boas intenções e amor. Leve chocolates e chore as despedidas quando voltar. Faça coisas importantes. Faça amigos. Seja poeta e profeta, pastor e irmão. Leve o nome do Deus que não precisa de motivos para amar. Volte mudado, mas volte o mesmo. Mas volte. Boa viagem.

08 agosto, 2012

cópia original


Minuto fraco de viver se a dúvida é a única coisa razoável que vem e fica. Nada de promessas, sem fotografias. O dia é da minha voz.

29 julho, 2012

Comparações

Tudo tem comparação. 

A gente compara presente e passado, uva-passa e chocolate branco, som e silêncio, piano e viola. Tudo tem comparação. Chato – isso – às vezes.

Comparar não é só um exercício de dialética, mas um jeito fácil de descobrir o que realmente é e o que dependerá de você para ser: é o que faz com que você desaprenda o valor, o tamanho, a medida, a intenção, a dor, a intensidade. De você mesmo e do outro.
Tudo pode ser comparado, mas só alguns pares de rabiscos da vida podem enfrentar a comparação consigo mesmos.

Há pessoas comparáveis a cheiro de café, a sabor de sorvete ou ao ré com sétima maior. Mas tem gente que intriga. Eu não gosto de gente com cheiro de café. Gosto de gente que tem cheiro próprio e carrega um mundo de coisas divertidas nos olhos. É bonito. Gente que - quase - não existe.
Dessa gente sente-se falta. Sentir falta de alguém é coisa rara. Uma vez eu senti falta.
Não é algo à toa, nem tão grande coisa. Esquecer a ausência ou compará-la a indefinidos já vividos é negligência, pura negligência. Os tolos negam. Os mais tolos se entregam (os mais tolos são inteligentes. Muito inteligentes).

Sinta a falta. Compare-a a ela mesma. Viva em uma chance eterna o que lhe será continuamente motivo de apego, de cumplicidade. Sentir falta de alguém em vida será comparado apenas à morte dessa ausência. A morte de um amor, talvez. Esteja ele vivo ou morto.

26 julho, 2012

O pote de azeitonas

As coisas que não cabem na gente podem ser bem mais divertidas. A calça que ficou apertada é bem mais style com o botão aberto, mas do tipo estourando mesmo. Da mesma forma, o tênis que não cabe no seu pé serve de chinelo. Convenhamos, é bem mais legal andar com o calcanhar fora do tênis do que dentro dele.

Tanta coisa deixa de caber na gente.

O doce de batata deixa de caber quando a ideia inventa a estúpida dieta. A blusa bonita se perdeu justamente porque você, agora, tem de fazer dieta. Mas a azeitona da geladeira não cabe mais porque venceu.

As azeitonas ficaram lá vencidas para que você, se é maníaco por azeitonas. palmitos e alcaparras como eu, as encontrasse de maneira degradante. Frustração bem maior do que encontrar um recado sem assinatura.

Se quiser que azeitonas caibam em você, terá de ir ao supermercado. E está aí outra incrível descrição compacta do caber e do não caber: o supermercado. Nele, há pessoas que não cabem na sua paciência. Atendentes que não cabem no seu padrão de atendimento. Produtos que não cabem no seu bolso (seja para roubar, seja para pagar mesmo). Há crianças que não cabem nos seus olhos porque lembram à infância enterrada o sonho de, cedo ou tarde, ser família.
Deixar de caber é tão fascinante quanto ser exato para todos os tamanhos.

Eu nunca quis caber num abraço, ou num riso, ou na resposta a um pedido formal. Pedidos formais são como queijos com fungos: você tem de comer fazendo pose. Gosto das azeitonas porque elas são informais. São aperitivos pra conversas que não terminam, pra um conhecer-se que não se cansa. A gente come, come, come azeitona e conversa sobre como é irritante comer salames se eles não estão bem fatiados.

Quis sempre ser como o pote de azeitonas um pouco antes da data de vencimento. Algo como estar entre a vida e a morte, e ser salva por encontrar o lugar onde o meu "caber" é maior, porque necessário.

O pote de azeitonas deixa de caber na gente quando a gente se esquece dele até que as azeitonas não sejam mais azeitonas.

24 julho, 2012

Finalmente, o que é o amor | poema torto da meia-noite

E que o seu amor seja
nada do que você esperou que ele fosse.
Que ele não lhe surpreenda, nem lhe encante,
porque todo encanto e toda surpresa não têm muitas risadas e caretas.
Diga – somente – que o amor, por fim, existe.
Basta.
Enfim, o amor existe.

Que o seu amor seja
aquele que não lhe preenche.
Que seja aquela falha que em você faltava,
aquela ausência que se consegue suportar.
Testes de sobrevivência repetitivos,
porque, quando o amor não está, é aí que ele está.

Que o seu amor não solucione nenhum problema.
E que não espere por você acordado
E que não vigie o seu sono
E que não lhe diga "eu te amo" só por querer lhe ver sorrir.
É até singelo. Mas é pouco.
Que o seu amor olhe além da fraqueza que você e seu corpo sentem diante
da terrível presença dele, esse assalto,
e que esse momento seja todo o amor de uma vida.
E só.

Que o seu amor não use as palavras que você espera ouvir. Deus te livre.
Se assim for, que ele nem ao menos fale.
Muita coisa é bela,
Mas nada é mais puro do que ouvir a tradução
de um sentimento sem as palavras exatas.
Nada melhor do que vê-lo tremer os lábios num abraço
ausente de qualquer explicação que esclareça um amor que existe.

Não espere pelo que sempre esperou.
Só alguém com quem você nunca sonhou dirá o que lhe tomará agressivamente a alma,
invadirá sem permissão alguma o que era somente seu,
e fará de você entrega, esperança, condenação.

Que o seu amor lhe dê silêncio de todas as formas.
Conversas em silêncio. Todos os dias.
O silêncio é quem diz a importância da vida que se deita ao seu lado.

Que o seu amor viaje sem você
Compre uma casa sem lhe avisar
Toque piano com uma mão só
Bata o carro e chore ao telefone.
Que ele precise de você para nada, mas que,
ao menos, queira precisar.
Que ele saiba sobre a sua presença:
ela é maior do que um tudo qualquer que ele invente para substituí-la.
É importante que ele lhe peça ajuda quando tudo se sufocar,
Porque a realidade dele vive no mundo que é seu:
Raiva, Apego, Ódio, Esperança, Solidão,
Alegria, Tormento, Impaciência,
Amizade, Intolerância, Amor, Saudade.

Amor é nada se comparado ao amor.
E saudade explica muita coisa.

Viva por um, sendo dois.
Seja intenso. Chore.
Nada é melhor do que lhe ver chorar
e ser a resposta na hora errada, o abraço recusado,
contudo, ao lado.
Presença quieta de uma reverência,
intrigante de tão completamente entregue.
Porque, por você, ele vem.

Que o seu amor viva de maneira apaixonadamente incompreensível,
tendo sonhos irrealizáveis, improváveis, lutando por coisas sem sentido.
E que seja bobo também. Às vezes. Muitas vezes.
E que você, mesmo não entendendo nada, diga que não entendeu mesmo.
Enxergue o seu lugar no que ele não lhe diz.
Enxergue o seu lugar só nele e, justamente, nele.

Que o seu amor diga a você apenas o que ele disser.
Mesmo que seu corpo peça alento
Mesmo que seus olhos estejam fechados
Mesmo que seu coração esteja aberto
Mesmo que suas mãos tremam e timidamente fujam
Mesmo que tudo seja perfeito.
Que, mesmo assim, o amor que é seu pronuncie imperfeições.
E que seja belo pra você. Que seja simples. Que seja real a sua ilusão.

Que ninguém mais saiba entendê-los quando resolverem dizer-se um ao outro.

Que o seu amor diga que lhe ama porque você não é nada daquilo que ele sonhou.
Que ele sinta sua presença na irritação parecida do padeiro
(curvam as sobrancelhas da mesma forma quando se comenta algo intolerável)
Que ele sinta sua presença na tagarelice da vizinha
Ou no silêncio de um enlutado.

Que você sinta o seu amor. Sinta-o desesperadamente.
Sinta-o ao ver tudo que com ele não se parece;
ao descobrir – naquelas pessoas de plástico – milhares de qualidades.
As qualidades que ele não tem. E ainda assim amar. Justo.

Sinta o seu amor na teimosia de uma criança
Na dúvida de um perdido
Na fantasia de um idealista
Na certeza de um sobrevivente
Ou no outono, quando uma folha cai de uma árvore sem cor.

Que o seu amor magoe a você. Profundamente.
E volte.
Que ele sempre volte. Porque felicidade a gente reinventa.


Que ele tenha todo o mundo inteiro
revirando-se em cada inútil pensamento,
sempre que se lembrar dessa sua voz que ri,
desse seu sorriso que se inclina,
desse seu delicado cuidado desnecessário,
dessa imperfeição criada para o caso de encontrá-lo.

Diga ao seu amor que "sim". E rápido.
Mas diga a ele que demore a chegar.
Saber esperar é saber como amar.
Não sabe como amar quem não sofre a espera de reconhecer o amor.
Prepare o prato preferido dele, mas, sem querer, deixe queimar,
só pra que ele diga que você é aquilo tudo que você já sabe que é.
E dê risadas.

Dê risadas com ele no eterno cenário que são seus olhos quando o amam. 
Ouça o que ele tem a lhe dizer. 
Voz fraca.
Timidamente perto.
Ar rouco. Palavras pequenas.
Ele diz. Diz então.

Diz que é isso o que o faz feliz.
É exatamente isso que o faz feliz.
E que, por isso, ele te amou.
E que, por isso, existe o amor.

07 dezembro, 2011

Na hidroginástica

Na hidro, enquanto eu lia ao sol e ria um pouco da minha mãe (é porque ela é estabanada que nem eu... hehe!), o neto de uma das vovós que 'tavam lá puxou papo comigo. Perguntou se eu já tinha brincado de montanha-russa, de barco viking e de tobogã. Ele sorriu de ladinho, brincando com os dedos um a um, encolhendo os ombros dentro do peito... queria saber se eu já tinha visto o mar! Expliquei pro meu amigo a cor e o gosto de ir à praia. Aí também contei o que é um banco de areia, o cheiro da maresia e pra que serve o calçadão. Aproveitei pra rir dos maiores caldos da minha história, e pra me lembrar de como foi legal quando ganhei minha primeira prancha de surf. A gente conversou sobre a lindeza que é ver o sol sumir atrás da água de tardezinha, porque ele já tinha visto o sol sumir na água do rio (- é a mesma coisa! - falei pro menino). Ele me disse que nunca tinha visto o mar. Aí tive que confessar que eu nunca tinha brincado em um rio e que tobogã me assusta bastante (ele é corajoso, gosta de tobogãs). Perguntei se ele tinha pensado sobre ser adulto: "vou ser jogador de futebol!". Achei o máximo: então estuda esportes!
O pequeno que gosta de tobogãs ainda 'tava curioso: "Você trabalha?" - Aham! (eu respondi). "O que você faz?" - ele quis me deixar adulta na conversa, mas eu fui mais esperta! Fiquei tão feliz que abri meu livro e, orgulhosa, apontei: trabalho com as palavras! Eu brinco de imaginar todo dia! Ele me olhou devagarzinho, inclinando a cabeça coberta pela luz amarelinha do sol, e desabafou um sorriso comprido: que liiiiindo! =]

20 setembro, 2011

Pronunciamento | de Ine para Ine

"Na história da nossa amizade, não são os lugares, datas ou personagens que importam; é o fato inegável de sermos parte da mesma crônica que a torna tão memorável. Na verdade, em se tratando dessa história, é sua própria narrativa que a torna tão inenarrável" (Ine, 2011)

11 maio, 2011

O final da conta

Todo mundo é ignorante, em algum aspecto ou noutro. E todo mundo conhece sobre algo muito bem, o que faz todas as pessoas "cultas" de alguma forma (que têm cultura). O problema não está no outro que não sabe o que eu sei; o problema está entre mim e o outro e a oportunidade de educação que eu dou a ele - quanto da minha cultura está disponível para o bem comum?! Quanto da minha ignorância está disposta a conhecer da cultura do outro? No final, somos todos ignorantes.

25 março, 2011

Meus pés respiram

Nunca durmo com os pés cobertos. Me deu na telha que faz mal pra saúde.

Simples: respirar é vital e ninguém deixa que os pés tomem conta disso durante o dia. Por gratidão de um corpo cansado - acho que mais mal agradecido do que cansado - conta-se por aqui que os pés são a respiração do corpo durante o sono. Por onde o ar invade o corpo é de onde nasce um sonho. Descobri, assim, que é de um pé que nasce um sonho.

O corpo só sonha se os pés respirarem (afinal, sonho é um emaranhado de ar que num tem fim). Do contrário, sonhos não serão sonhos, mas apenas pensamentos. Ficam presos ao conteúdo de uma miséria, de uma dúvida, de uma diligência ou de nada. Sem pés livres, sem sonhos.

Sonho é uma estrutura complexa que precisa de ar pra sobreviver a uma densa noite de descanso.

São os delicados ou eufóricos pés que denunciam ao meu corpo os lugares todos que eu ou vi, ou inventei. Aqueles onde quis ter caminhado mais, ou aquele outro onde eu deixei marcas na grama quando tropecei. Grandes ou pequenos espaços onde desejei andar em círculos. Lugares onde, nus, meus pés tocaram o chão ao, por respeito, despirem-se dos sapatos.

Noite passada, meus pés contaram que eu perdi a vontade de caminhar o meu caminho. O sonho inventou que eu queria ter, numa visão um tanto etérea, caminhado sem sair do mesmo lugar.

Eu sei que eles também contam dos lugares onde nunca andei mais do que meia dúzia de passos rápidos, mas que, por clemência dos meus ouvidos, ali ansiava ficar, estaticamente ali, ouvindo a mesma voz que tira os meus pés do chão e transforma um pensamento em sonho, mesmo sem dormir, mesmo sem acordar.

São meus pés que têm em alguém um lugar pra sempre.

Meus pés conversam com tudo o que o meu corpo deixou de ser. Acho que tornei irrelevante o caminho e os desviei, os pés, da forte sensação de que a estrada mudava de rumo. Eles contaram ao meu descaso que outros pés vieram em minha direção e que, por incredulidade, eu os paralisei.

Pés que não caminham impedem as mãos de se unirem. A distância continuou maior do que o caminho e o amor que ainda não é de ninguém permaneceu.

Aprendi que meus pés não me dariam preocupações se eu não caminhasse demais. Doeriam menos. Aprendi errado. São os pés que dizem o que está por vir; que vigiam pelo meu corpo os movimentos de quem me alcança.... São os pés que, sem querer, ficam brincando com o menino bonito que gosta de caminhar pra me abraçar. Às vezes corro dele, às vezes recuo, às vezes só espero.

É por isso que não podem ser outros a não ser os pés que produzem os sonhos. Os pés sabem desenhar pro corpo cada detalhe que deixei de viver. Revelam que sou o que sou porque cheguei atrasada para dar o único passo necessário à transformação de um dia em eternidade.

Os pés não transformam sonhos em realidade... eles são a parte real dos sonhos.

23 dezembro, 2010

texto escrito para não ser lido



Quase sempre imaginei muitas coisas. Essas coisas nada criativas. É, eu sou senso comum.
Imaginei não ser filha única, ser a melhor amiga da minha mãe e aprender a dirigir com meu pai. Imaginei como seria gastar a poupança que, como filha, ganhei ao nascer. Também imaginei o dia em que os adultos não chamariam meu som de barulho ou diriam: "ela vai estragar o piano!". Me deixariam fazer música. A minha música. Sonhei com o dia da minha primeira performance sem meu professor sentado ao lado do “fá 6” (ele sempre estava perto das últimas oitavas). Imaginei os prêmios que ganharia como pianista.
Queria conseguir pensar diferente, ter um quarto só pra mim, poucos amigos, passar no vestibular, voar, ter um trauma, ter uma coleção enorme de livros lidos e lutar por uma causa.
Imaginei o primeiro beijo do primeiro namorado, o primeiro choro verdadeiro e a primeira lua que eu veria apaixonada sem reservas (ainda não aconteceu). Imaginei o primeiro dia de aula na faculdade e como seria quando eu fosse dona de um celular, de um computador, talvez do meu próprio carro e do meu piano.
Imaginei ter melhores amigos que falassem o que os falsos amigos reprimem. Os ódios, as inquietações com minhas manias, as falas inconclusas ou as seis mil palavras diárias. Apenas os amigos têm as seis mil palavras diárias. Aos outros, silêncio. Amigos que subsistissem ao terror que são a minha arrogância e o meu descuido e que quisessem conversar comigo, por conversar.
Imaginei ser professora universitária, elaborar provas verdadeiramente épicas e deixar escapar um “se vira” de vez em quando para os alunos inseguros; mas seria o melhor que minha profissão me propusesse ser.
Tudo foi real. Imaginei. E tudo aconteceu.
Vi muitas coisas nas minhas ideias, só que também vi meus dedos cada vez menos ao piano, minha voz cada vez mais larga e minhas imaginações cada vez mais diferentes. Tão diferentes. Não faz mais sentido imaginar as mesmas coisas.
Nunca imaginei meu avô sentado na varanda apoiado em uma bengala e morando na minha casa; meu pai chorando de alegria ou de tristeza ao meu lado, sendo mais pai do que qualquer um que eu conheça. Minha mãe feliz pelas escolhas que fiz na vida. Nunca imaginei minha irmã cursando a mesma graduação que eu, gostando das mesmas coisas e rindo do meu carro (que será dela) rangendo com a suspensão quebrada.
Minha irmã ri pra mim. Nunca imaginei que a ensinaria a dirigir ou que ela será a família toda que eu terei em alguns anos. Seremos uma da outra mais do que sempre.
Nunca imaginei que eu fosse gostar de ouvir pessoas, que esperaria meses pra passear com meu melhor amigo e que meu outro melhor amigo iria se casar. Nem racionalizei que não teria coragem de dizer “adeus” pra melhor amiga que vai morar na China – geograficamente falando.
Imaginei muita coisa, mas nunca achei que eu pintaria as unhas de vermelho (e o pior, que o faria sozinha), e que não sairia de casa sem blush, batom, lápis e um acessório.  Psicolinguística, responsabilidade social, análise de conversação, teologia e psicodrama também não faziam parte dos olhos cerrados.
Nunca imaginei que sentiria falta de ser adulta quando tenho que ser adolescente.
Nunca imaginei que teria que mudar de cidade para entender que aqueles que eu pensava ter na vida, eu nunca tive. Na verdade, foram poucos os que eu guardei como tesouro. Estes são meus. Mas isso já aconteceu há 10 anos e eu, agora, não me importo mais. Quero mudar de novo.
Ser testemunha de uma guerra nuclear em potencial, ver pessoas venderem seus rins para comprar uma tecnologia ou que um palhaço seria eleito com mais de um milhão de votos nunca passou pela minha cabeça.
Nunca imaginei e agora sou convencida a imaginar porque fui medíocre a ponto de escrever um texto sobre mim mesma. Ei-lo aqui. Mas não importa mais. Assim como não importa mais nada que seja meu.
Importa ser de alguém, seja como for. Como ouvido, gente, professora, ajuda, música ou como qualquer coisa que vá e faça onde ninguém faz.
Importa é que eu deixei o questionamento sobre os universos paralelos pra lá e, de agora em diante, basta acreditar em que eu, talvez, exista.

                                                                                        Importa é que eu deixei o questionamento sobre os universos paralelos pra lá e, de agora em diante, basta acreditar em que eu, talvez, exista.

20 dezembro, 2010

momento de reflexão








taí uma coisa q não entendo. como é que existe gente assim no mundo? pesquisar no google dá cada coisa...

03 dezembro, 2010

amor de dois ou de mais

Não existe verdade.

Queria ir ao mundo pra dizer a todos que não existe verdade.

Queria dizer que não se pode acreditar na existência da verdade se é necessária prudência para amar. Se é preciso sentir a vergonha do silêncio para subsistir a dor de um ego, não existe verdade. Se é preciso ogulhar-se de ser o segundo a amar, o segundo a pedir, o segundo a convidar, o segundo a sofrer; se é preciso procrastinar o amor, não há amor. Sem amor, o mundo é ausência, o mundo é inverdade.

Se nunca quero ser o que ama antes do que é amado, não há o que amar. Não há necessidade do outro. Há convivência com uma dor repleta de impureza e injustiça. Justo é largar-se. Justo é negar o conforto de uma paz de um pra deixar uma paz de dois povoar um sentimento ou um preenchimento.

É preciso ir até onde há dor. É preciso ferir-se para encontrar a verdade. É preciso ver homens e mulheres sozinhos, passados, sujos e depreciados. Talvez impiedosos. Com certeza sangrados. É preciso ir, fraterno. Pra amar você e pra me amar.

Eu preciso amar você.

É preciso partir e é preciso pedir pra que fique. Peça para que eu vá; é necessário sentir falta de uma presença. É demasiado urgente que o amor vá aonde ele não está.

Onde foi tudo em que acredito ? Seria infidelidade dizer que estou feliz agora.

Não é útil procurar, não é útil ser de carne. Não é útil viver sem verdade.

Pra onde foi tudo que eu deixei estar... eu não vou me perguntar. 

03 novembro, 2010

death

Most people have hard time dealing with death. But I'm not most people. It's the grief that makes me uncomfortable. Not because I'm a killer. Really. I just don't understand all that emotion. Wich makes it hard to fake.
(dexter)

04 outubro, 2010

discursando ao espelho

tô pensando que sei as respostas pras perguntas que você não tem.

sei responder se naquele dia eu me sentia ou não isoladamente bizarra, em perspectiva de guerra, quem sabe carente. esse gesto que você faz, esse... de curvar as sobrancelhas até se esconderem nos óculos... rindo de modo tonal, em fá, quase contratenor, do óbvio ignorado; esse tipo de quem sabe da minha alma os movimentos todos; é esse tipo que eu nunca vi sair de você. nunca tinha visto. Quase dá pra sentir o meu espanto ao viajar nesses nossos séculos, procurando assim, avidamente, uma explicação pra esse status quo que existe entre o meu existir e o seu. Eu fiz festa com esse apelo constante de cumplicidade, vigiando cada modelo de você que eu tinha no catálogo. A gente precisa se sentir limitado, se sentir dois na solidão de um segredo, se sentir mais do que se viver...

eu não quero que seja de mais ninguém o mundo seu que está comigo. e a ousadia de ler você só pode ser a resposta de uma dessas perguntas que você não tem.

17 setembro, 2010

Em minha defesa

Tratava-se de um acordo literário.
Nem ele nem ela existiam.
Apenas eram.
Como se algum dia tivessem sido.
Amizade é isso.
Assumir que não sabe quando for o único a entender.
Vigiar os extremos para que, de qualquer pólo,
o amor valha mais a pena do que os modos.
É importante dizer algumas coisas baixas e sem sentido também,
deixar as palavras sem coerência
e bagunçar a cabeça com movimentos infiéis.
É importante ressaltar que importa, sim, o que eu digo
e que defendo tudo que tenho de você.
Amigos não, somos leitores.
Você não sabe nada de mim
eu nada quero saber de você.
Basta que a gente se valha,
mesmo que seja só por aqui, na divergência literária.

15 setembro, 2010

Outro qualquer

Quando viver falha, eu apelo pra indiferença. Visceral e aristocrática indiferença. Não gosto muito dos meus fingimentos e mentiras, nem de fazer de conta que é empolgante ouvir as histórias dos outros sobre seus triunfos enquanto eu decido que não quero um. Nunca penso na humilhação. Eu tenho meus critérios. Desvio o olhar como um corrompimento de nãos. É como tingir flores: se a verdade da cor for vista mais uma vez, será quando a planta já estiver morta.
Aqui, do meu lado, eu fico me dizendo verdades, ou, pelo menos, o que eu queria que fosse verdade. Eu conto umas histórias absurdas sobre como tudo isso faz sentido e sobre como você tornou a minha vida um domínio público.  Geralmente funciona. Com você também funcionou, porque não se comove. Não se emociona. Apesar de ser a mais banana das criaturas e chorar no colo da mamãe. Está completamente invadido por minhas ofensas e, é natural, não as entende. Por isso diz aos outros quem eu sou. Aliás, foi particularmente ridículo pensar que qualquer algo tenha mudado. Se me fez? Que nada. Continuo como desde hoje. Prefiro assim. Andar fora do chão não faz o meu tipo e elogio é a pior maneira de me mostrar que você é um qualquer. Prefiro ofender, criticar e sumir, sem perder a chance do brigadeiro sem palavras com o filme que mais ninguém gosta. Minhas declarações de amor estão tomadas por tensões, falta de fotos, impiedade, recuo e liberdade. Se alguém as entender, ganhou brigadeiro. Nada de banho de chuva.
Se sou indiferente é porque ainda insisto.
Faz bem fingir a ausência. Finge a fuga.
O problema é que seu nome está errado.